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Chegadas e Partidas

Os corredores eram intermináveis, silenciosos, iluminados em dourado. Caminhava por eles arrastando os pés fatigados, imaginando a que horas ou em qual momento poderia respirar aliviada. Em cada porta, uma lembrança. Como se fosse abrir um pouco de sua memória.Quarto 408, lençóis emaranhados, taças de vinho e um eco de risadas perdidas.
Quarto 1035, perfume de jasmim.
Quarto 701, em ordem.
Tudo em seu lugar, intocável, imaculado.
Sentia-se vazia como aquele cômodo, incômodo. Sentia-se intocada há anos desde que partiu. Sentia-se imaculada desde que chorou.

Olhou-se no espelho e mal se reconhecia naquela figura nublada. Tinha apenas vinte e cinco anos. Tinha apenas uma esperança.

Os corredores vazios a assustavam. Principalmente na madrugada quando a cidade apagava e apenas os fantasmas do passado se acendiam.
Mas o cansaço era forte, dominava o corpo frágil e esguio castigado pela neve e a melancolia.

Pela janela, apenas um balé de flocos brancos perolados teimava em brincar no vento.
Ela sentia frio, muito frio. Os olhos pesados, frio. A mão suava, frio. Frio.

Excuse-me? A senhorita passa bem? – uma voz grave soava ao fundo de um vazio escuro.

A pequena levantou em um salto, ajeitando o uniforme amarrotado e o cabelo solto.
Desculpe, senhor. Eu lamento – gaguejou – de repente eu passei mal e devo ter adormecido. Perdão!
Não há nenhum problema, um cochilo faz bem para a saúde! – ele riu, acentuando a sua sobrancelha grossa e o sorriso bonachão enquanto dobrava o casaco úmido.
O senhor é o hóspede deste quarto? Não havia nenhuma previsão de check in agora…
Isto faz diferença?
Ela lamentou mais uma vez sem levantar os olhos, envergonhada e temerosa de seu emprego recém conquistado.

Sabe o que eu preciso agora? Urgente? De um café!
Temos o serviço de quarto, basta discar o número….
Nada disto! – ele interrompeu – Muito caro. Vamos até a estação de trem ai em frente. Tem serviço 24 horas e um café inesquecível. Vamos, eu convido.
Infelizmente não posso aceitar, senhor. Estou no meu horário. Mas agradeço e mais uma vez peço desculpas pelo ocorrido.

Ela se esquivou lentamente das malas pesadas e saiu pelo corredor checando a listagem dos quartos. Tudo silencioso na madrugada.
Finalmente podia descansar no vestiário até que o metrô voltasse a funcionar. Mais algumas horas e uns punhados de dólares.
Quando a porta do elevador se abriu, levou um susto. O hóspede do 701 estava lá, sorrindo como se já a esperasse.
O café?
Desculpe, realmente não posso.
Por favor?
Olhe, não sei o que o senhor pensa de mim mas…. – lágrimas começam a brotar de seus olhos avermelhados – eu só quero trabalhar honestamente, não quero nada, por favor, não faça nada comigo…não pense isto de mim…eu não aquilo que o senhor imaginava, por favor… eu…
Você está no caminho certo, Esperança.
Um silêncio parou o elevador. Ela se viu acuada e presa dentro de um minúsculo espaço de madeira, ferro e espelhos.
Como? Mas….como?
Limpe suas lágrimas, garota. Senão elas vão congelar lá fora. Venha, vamos ao café. Você merece e eu também.

Os dois desceram as escadas do lobby como se fossem invisíveis. Os demais colegas pareciam congelados no tempo. Sem expressão, sem cor.
Front Street, coberta com uma manta de neve, era iluminada pela Torre imponente. De suas antenas, um pisca pisca colorido parecia emitir sinais para o céu.

Partidas e chegadas atrasadas na Train Station. Alguns dormiam, alguns liam. Alguns esperavam.
E você, Esperança? O que espera?
Ela permaneceu atônita segurando o copo de café quente. Teve coragem de olhá-lo nos olhos e gaguejou: – Como sabe o meu nome?
Esta é boa!!!! Esta escrito no seu uniforme! Oras….
Desculpe, nem reparei. Sou uma idiota…Mas por que me trouxe para o café, o que o senhor quer?
Um gole profundo, demorado…uma fumaça saiu de seus lábios grossos. Ele tossiu, franziu as sobrancelhas e sussurrou: – Quero que tenha esperança. O passado ficou lá atrás em um vagão do passado. Olhe para a frente, sorria, caminhe, seja uma mulher de vinte e cinco anos. Viva a Esperança que você é.
Não estou entendendo. O que o senhor sabe da minha vida? Minha idade? Quem é você?
Um hóspede, oras! Quem mais seria, pequena tola?

Um aviso sonoro distrai a atenção de ambos.
Meu trem. Devo partir.
Ainda não entendi nada, que espécie de brincadeira é esta?
Esperança…Esperança!!! – ele repetia sorrindo. – Vai amanhecer e o dia será de um azul intenso. Mas não esqueça das luvas! Os dias de inverno são lindos, mas o sol não é como na sua terra.
Assim como as gargalhadas, aquela figura de casacos pesados foi desaparecendo aos poucos no meio do pequeno grupo de pessoas apressadas em direção ‘as plataformas. Mas não as palavras.

Esperança colocou as luvas e atravessou a rua de volta ao hotel. Já sentia no ar um aroma de chás e cafés e tudo parecia estar normal.
No vestiário, olhou-se no espelho e se viu menina. De vinte e cinco anos, pronta para lutar pela sua vida. Pela sua própria esperança.
Hey, babe….acordou belíssima, hein? Nada como um bom descanso após uma noite tranquila! – comentou a amiga da limpeza, que se vestia para deixar o turno.
Não dormi nada nesta noite, tive uma madrugada estranhíssima! Acho que você não acreditaria…
Hmmmm, você merece descansar mesmo. Que madrugada estranha? Você dormiu a noite toda aqui, estava com dor de cabeça, não lembra? Eu hein? Até te dei um analgésico….Olha, melhor você procurar um médico e se cuida pois hoje vai nevar como nunca!!

Sozinha e solitária, Esperança não entendeu nada.
O dia estava de um azul maravilhoso, gélido. Poético.
Atravessou a rua, já movimentada e sentou-se para um café na Train Station. Alguns dormiam, alguns liam, alguns esperavam. Alguns sonhavam.
Não ela. Esperança acordara do seu mais longo pesadelo. Agora era viver. E com esperança.

Coluna “Megalópolis”
Por Fred Itioka

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