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Tcheco tempestuoso prepara-se para ser ‘a cara’ da Europa

Na década de 1980, um agente da polícia secreta comunista se infiltrou em seminários clandestinos de economia organizados por Vaclav Klaus, tempestuoso futuro líder da República Tcheca, que nunca havia estado sob suspeita de enaltecer as virtudes do livre-comércio. Ao invés de reportar heresia marxista, o agente foi atingido pela hoje notória arrogância de Klaus.

“Seu comportamento e posturas revelam que ele se sente como um gênio rejeitado”, disse o agente em seu relatório, que nunca havia sido divulgado. “Ele mostra que qualquer um que não concorde com seus pontos de vista é estúpido e incompetente.”

Décadas depois, Klaus, de 67 anos, o presidente da República Tcheca – um iconoclasta com bigode perfeitamente aparado –, continua provocando fortes reações. Ele culpou o que chama de uma luta extraviada contra o aquecimento global por contribuir à crise financeira internacional, rotulou Al Gore como “apóstolo da arrogância” por seu papel naquela luta, e acusou a União Européia de agir como um estado comunista.

Agora a República Tcheca está prestes a assumir a presidência rotativa da União Européia e existe um medo concreto de que Klaus irá constranger o maior bloco de comércio do mundo e complicar os esforços para lidar com a crise econômica e expandir seus poderes. Seu papel na República Tcheca é principalmente cerimonial, mas ele continua sendo uma poderosa força local, coleciona fanáticos através da Europa e deleita-se com os holofotes.

“Ai, meu Deus, Vaclav Klaus é o próximo”, dizia uma recente manchete no jornal austríaco Die Presse, num artigo antecipando a destruição que ele poderia causar numa união de 470 milhões de pessoas já dividida a respeito de seu direcionamento futuro.

Economista de formação e apoiador do livre comércio por ideologia, Klaus criticou o curso definido pelo líder da união que está deixando o posto, o presidente Nicolas Sarkozy da França. O ambicioso Sarkozy usou a presidência francesa da União Européia para empurrar uma agenda que inclui regras mais amplas e coordenadas pelas maiores economias para domar o pior nos excessos do mercado.

Mesmo aqueles que temem o potencial papel de Klaus como destruidor reconhecem que sua influência sobre a política na União Européia será limitada, dadas suas funções principalmente simbólicas como presidente da República Tcheca.

Mas a vontade absoluta e a fala veemente de Klaus – o eminente historiador Timothy Garton Ash chegou a chamá-lo de “um dos homens mais rudes que já conheci” – provavelmente terão algum impacto.

“Klaus é um provocador que mudará seus argumentos para obter a atenção”, disse Jiri Pehe, ex-conselheiro de Vaclav Havel, rival e predecessor de Klaus como presidente.

Para seus seguidores, Klaus é um guerreiro bravo e solitário, defensor da liberdade, o único líder europeu nos moldes da formidável Margaret Thatcher (apoiadores dizem que Klaus tem uma foto da ex-primeira ministra britânica em seu escritório, ao lado de sua mesa).

Para seus muitos críticos, ele é um populista cínico, um pragmático de cabeça dura há muito conhecido como o contrário de Havel, o sonhador-filósofo, e um criador de problemas.

Klaus recusou ser entrevistado para este artigo. Seu escritório chamou uma lista de questões propostas de “peculiar”.

Como ex-ministro da fazenda e primeiro-ministro, ele tem o crédito de presidir durante a pacífica divisão da Tchecoslováquia em dois estados, em 1993, e ajudar na transformação da República Tcheca em uma das economias mais bem-sucedidas no bloco da ex-União Soviética.

Mas suas idéias sobre governar estão em desalinho com muitas das nações da União Européia que seu país vai liderar a partir de 1º de janeiro.

Enquanto muitos dos mais ardentes defensores do livre-comércio reconheceram a necessidade do recente resgate coordenado dos bancos europeus, Klaus o reprovou como um protecionismo irresponsável. E culpou demais – ao invés de muito pouco – os regulamentos pela crise.

Um fervente crítico do movimento ambiental, ele chamou o aquecimento global de um perigoso “mito,” argumentando que a luta contra a mudança climática ameaça o crescimento econômico.

Talvez sua maior ira tenha sido reservada à União Européia. Em 2005, ele a chamou de “sobras”. Agora, ele é um oponente vocal do Tratado de Lisboa, que busca ajudar a Europa a se tornar mais internacionalmente presente mas que, segundo ele, pode despir países de sua soberania.

Numa visita de estado à Irlanda, em Novembro, Klaus inflamou o governo e perturbou muitos em seu próprio país ao louvar publicamente Declan Ganley, um executivo e ativista político que influenciou a persuasão de uma maioria de eleitores irlandeses a rejeitar o tratado em junho.

E enquanto outros líderes europeus criticaram uma Rússia ultimamente assertiva, Klaus criou íntimas ligações com o primeiro ministro Vladimir V. Putin e se distanciou da crítica do governo tcheco em relação à Rússia sobre a guerra com a Geórgia, em agosto.

Aqueles que conhecem Klaus dizem que seu liberalismo econômico é um resultado de sua criação. Nascido em 1941, ele obteve um diploma de economia em 1963 e foi profundamente influenciado por economistas do livre-mercado como Milton Friedman.

O filho e homônimo de Klaus, Vaclav, recordou numa entrevista que, aos 13 anos, seu pai lhe disse para ler Aleksandr Solzhenitsyn para compreender melhor a opressão do comunismo.

“Se vive sob o comunismo, você é muito sensível a forças que tentam controlar ou limitar a liberdade humana”, disse ele numa entrevista.

Em 1989, durante a Revolução de Veludo para derrubar os líderes comunistas da Tchecoslováquia, Klaus ofereceu seus serviços como economista ao Fórum Cívico, grupo de oposição ao governo. Quando o novo governo assumiu o controle, ele se tornou ministro das finanças. Mas seu relacionamento com os dissidentes azedou rapidamente.

Havel lembrou em suas memórias que Klaus tinha uma aversão “ao restante de nós, que ele havia claramente depositado na mesma lixeira, com uma placa dizendo ‘intelectuais de esquerda’”.

Em 1991, Klaus fundou um novo partido de centro-direita, o Partido Democrático Cívico, que venceu as eleições em junho de 1992, tornando-o primeiro ministro. Sua radical estratégia de privatização – incluindo um esquema de títulos posteriormente imitado na Rússia, onde acabou levando ao acúmulo de vastas fortunas por alguns oligarcas – foi marcada por alegações de corrupção, com Havel acusando Klaus de “capitalismo de gângster”.

Ladislav Jakl, o atual secretário particular de Klaus, disse que a principal diferença entre os líderes era que Havel buscou levar a bondade ao povo, enquanto Klaus estava determinado a conceder a liberdade.

Klaus foi forçado a renunciar como primeiro ministro em novembro de 1997, após uma crise governamental causada por um escândalo financeiro no partido. E em 2002, ele foi forçado a deixar a liderança do partido quando este perdeu uma segunda eleição.

Mas Klaus posteriormente decidiu candidatar-se à presidência e venceu por uma estreita margem em 2003. Desde então ele ganhou tremenda popularidade, e foi reeleito neste ano pelo parlamento tcheco.

Bohumil Dolezal, um comentarista de renome que já foi conselheiro do presidente, disse que o maior talento de Klaus era sua habilidade de atrair o tcheco comum, que engoliu seu populismo fácil juntamente com suas cervejas.

“Os tchecos têm um passado profundo, cheio de injustiças, e Klaus é um mestre em fazer uso isso”, disse Dolezal, acrescentando que o cargo da presidência, apesar de seus limitados poderes, empresta a aura de imperador-rei.

“Mesmo se um cavalo fosse presidente da República Tcheca, ele teria uma taxa de aprovação de 50%”, disse ele. “E Klaus é, certamente, muito mais esperto que um cavalo.”

Por: Dan Bilefsky Do New York Times, em Praga

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