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Dicas para evitar gafes em viagens ao exterior

O consultor Sven Dinklage diz que brasileiros exageram no contato físico. Demonstrações de afeto em público devem ser evitadas no exterior.

Você sabia que o número 4 é sinal de azar para os japoneses? E que é desrespeito deixar o pé mais alto que a cabeça em alguns países asiáticos? Para o consultor multicultural Sven Dinklage, que é alemão mas vive no Brasil há uma década, viajar para outro país requer, além de um conhecimento básico da língua, algumas informações sobre a cultura local. Só assim é possível evitar algumas gafes que podem atrapalhar sua viagem.

Esses ruídos na comunicação que muitas pessoas cometem em países estrangeiros ocorrem por falta de conhecimento a respeito do modo de vida no outro país. E os brasileiros, tão acostumados ao contato físico e a demonstrações públicas de afeto, devem tomar muito cuidado, diz Dinklage.
“O brasileiro deve se comportar com mais discrição e mais seriedade no exterior”, afirma Dinklage, especialista em intercâmbio multicultural. Para ele, o domínio do idioma estrangeiro não garante uma comunicação 100%. É preciso, antes de tudo, “respeitar as diferenças”. Veja aqui a entrevista que ele concedeu.

  • Quais as gafes mais comuns que os brasileiros cometem no exterior? O senhor poderia citar alguns exemplos?

Sven Dinklage – Pelo seu jeito extrovertido e comunicativo de ser, o brasileiro tende a ser um tanto escandaloso comparado com outros povos – em grupo, então, não é difícil identificá-lo. Dá para saber quem é brasileiro até de longe! Isto está relacionado à grande informalidade do brasileiro e ao seu estilo de comunicação, que está repleto de gestos e contato físico e permite que as pessoas se interrompam umas às outras durante o diálogo. O brasileiro faria bem de tomar cuidado e ser mais discreto e mais reservado no exterior.
Lembro de um ótimo exemplo que aconteceu na minha própria família. Estávamos na Alemanha visitando meus parentes e, certo dia, fomos visitar o meu pai no escritório dele na prefeitura da cidade da qual ele era prefeito. Ele interrompeu uma reunião na sala para nos cumprimentar, e a minha esposa, que é brasileira, deu um daqueles abraços para o meu pai na frente dos secretários e assessores dele. Todos ficaram olhando admirados e foi por pouco que a minha esposa não foi dar um abraço em todos eles também!

  • Arquivo pessoal

O consultor internacional Sven Dinklage, durante viagem a Paris

  • Em que países deve se tomar mais cuidado?

Dinklage – Pelos exemplos citados acima, recomendo maior cuidado na América do Norte, no Norte da Europa, nos países Árabes e na Ásia – em todas estas regiões existe, entre outras coisas, uma grande formalidade no contato entre as pessoas.

  • O senhor já cometeu alguma gafe cultural?

Dinklage – A gafe da qual eu mais lembro aconteceu quando iniciei o meu ano de estudos na França. Como eu ainda não tinha um quarto, morei as primeiras semanas na casa dos pais de uma colega da minha turma. Eu não sabia que era uma das mais prestigiadas famílias de Paris e não fazia a menor ideia da grande formalidade que existe neste nível social na França. A minha gafe cultural foi tratar o pai da minha amiga, um alto executivo, como “tu” e não saber que o certo era usar “Bonjour Monsieur…”, “Merci Madame…” e “Oui Monsiuer…” toda hora; piorei as coisas mais ainda tentando “descontrair” o clima com uma brincadeira. Vi pela reação do pai da minha amiga que ele ficou muito ofendido e deve ter pensado: “Mas quem deixou este representante dos povos germânicos pré-históricos entrar na minha casa?”.

  •  O senhor diz que o conhecimento do idioma não importa tanto para evitar gafes. É isso mesmo?

Dinklage – O que costumo dizer é o seguinte: o domínio do idioma não garante nada. Posso ter grande domínio do idioma e mesmo assim ofender as pessoas. Eu falo português há 15 anos e considero o meu nível excelente, mas mesmo assim não consigo me comunicar sempre 100%. Quando não falamos o idioma, talvez não consigamos nos aprofundar tanto na outra cultura, mas as chances de cometermos gafes culturais também são bem menores.

  • As gafes de quem viaja a turismo são diferentes das de quem viaja a trabalho? Quem está mais exposto?

Dinklage – Sem dúvida, o turista está menos sujeito às gafes culturais: ele tem um certo desconto por ser turista e normalmente é atendido por profissionais acostumados a lidar com outras culturas. Quem viaja a trabalho enfrenta um universo muito maior de contatos e situações que podem resultar em gafes culturais. Mas mesmo o turista pode passar por sérios problemas, como aconteceu com um brasileiro que estava passeando no Marrocos com a sua família. Em certo lugar, um comerciante local se aproximou e ofereceu um determinado número de camelos pela filha do turista. O homem de família, reagindo com o reflexo natural do brincalhão brasileiro, respondeu: “Se pagar o dobro disto, tudo bem!”, o que foi imediatamente aceito pelo comerciante como negócio fechado. Agora imagine o mal entendimento que isto causou no árabe, que não queria aceitar de jeito nenhum que se tratava de uma brincadeira! Só depois de muita briga o brasileiro e sua família conseguiram escapar da situação, deixando grande constrangimento e sentimentos muito amargos para todos os envolvidos.

  • Quais são as maiores gafes que os estrangeiros cometem aqui?

Dinklage – Para fazer negócios no Brasil, muitos executivos estrangeiros têm dificuldade de entender a importância que o relacionamento pessoal tem na vida profissional brasileira -em outras culturas a vida profissional não é de maneira alguma misturada com a vida pessoal. Muitos estrangeiros também têm dificuldade de entender o nosso jeito mais codificado de se comunicar e tendem a levar as coisas literalmente, decepcionando-se quando as coisas não acontecem conforme haviam entendido (isto também vale para a pontualidade do brasileiro). E, para citar mais um exemplo que não é bem uma gafe cultural, os estrangeiros normalmente subestimam a seriedade da situação da nossa segurança pública e se expõem a riscos maiores do que deveriam.

  •  Os erros ocorrem porque as pessoas tentam se adaptar demais à cultura local ou porque, do contrário, não têm o respeito mínimo às culturas diversas?

Dinklage – Os erros ocorrem, sem dúvida, mais por falta do que por excesso de preparo. A maioria das pessoas desconhece totalmente a complexidade do mundo intercultural e não se interessa pelas diferenças existentes. Ou, se conhecem o assunto, acham que os outros estão errados e devem se adaptar ao estilo deles.

  •  O senhor poderia dar algumas dicas básicas que ajudam a evitar erros catastróficos de brasileiros no exterior?

Dinklage – O brasileiro deve se comportar com mais discrição e mais seriedade no exterior. Deve manter a simpatia que lhe é nata, mas não exagerar nas emoções, nos gestos e no contato físico. É de suma importância aceitar que o comportamento extrovertido e carinhoso do brasileiro podem não ser bem vistos por outros povos. Deve-se respeitar as diferenças e se lembrar que: “When in Rome, do as the Romans do!” (“Quando em Roma, faça como os Romanos”).

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